A Amazon divulgou na noite de quarta-feira os resultados do segundo trimestre, que, em termos de manchete, pareciam uma das maiores surpresas de lucros da história da empresa. A estimativa consensual era de US$ 1,81 por ação. A Amazon registrou US$ 5,75. Quase toda a diferença vem de um ganho a valor de mercado sobre uma participação privada.

De onde veio a surpresa

O comunicado diz isso de forma explícita: o lucro líquido do segundo trimestre "inclui outros rendimentos não operacionais antes de impostos de US$ 53,4 bilhões, principalmente de nossos investimentos na Anthropic". A demonstração consolidada de fluxo de caixa traz o mesmo valor como receita não operacional de $(53.381) milhões. Tire esse efeito e a surpresa desaparece. Trata-se de um ganho não caixa, não realizado, que se reverte se a avaliação da Anthropic mudar. As vendas líquidas foram de US$ 200,6 bilhões, alta de 20% e o primeiro trimestre acima de US$ 200 bilhões; o lucro operacional foi de US$ 27,5 bilhões, alta de 43%. Esses são os números operacionais reais, e são fortes — mas não foram eles que produziram os US$ 5,75.

O lado do caixa

O fluxo de caixa livre nos últimos doze meses é de negativo US$ 7,6 bilhões, ante um positivo de US$ 18,2 bilhões um ano antes. O comunicado atribui a virada a um aumento de US$ 66,1 bilhões na comparação anual nas compras de propriedades e equipamentos, líquidas de receitas e incentivos, "refletindo principalmente investimentos em inteligência artificial". O capex foi de US$ 54,2 bilhões apenas no trimestre e de US$ 173,0 bilhões em doze meses, ante US$ 107,7 bilhões um ano antes. O fluxo de caixa operacional ainda subiu 33%, para US$ 161,4 bilhões.

Duas leituras equivocadas

Primeiro, o fluxo de caixa livre negativo é um número de últimos doze meses, não um evento do segundo trimestre — o comunicado diz isso, mas "o fluxo de caixa da Amazon ficou negativo" sugere a leitura errada. Segundo, a orientação para o terceiro trimestre de US$ 197–202 bilhões fica abaixo do consenso de cerca de US$ 204 bilhões, e a manchete do EPS ofuscou isso. A projeção de lucro operacional de US$ 22,5–26,5 bilhões, porém, compara-se bem com US$ 17,4 bilhões um ano antes.

A circularidade que ninguém quer nomear

A Amazon é investidora na Anthropic, fornecedora de capacidade computacional para a Anthropic e, agora, beneficiária, na manchete de lucros, da valorização da Anthropic. A Microsoft contabilizou nesta semana uma versão menor do mesmo ganho. Quando a maior provedora de nuvem financia capacidade de IA com fluxo de caixa negativo e compensa isso com uma reavaliação contábil de um laboratório para o qual também vende, a questão estrutural que paira sobre todo o ciclo de investimentos deixa de ser teórica e passa a aparecer nas demonstrações financeiras.